Nênia
Gonçalves Dias (?–1864)
O começo — I.
Morreste, como a folha verde e linda, / Que não viu murcho o esmeraldino encanto; / Bem como um ai que melindroso finda, / Em quanto as faces não roreja o pranto!
Bem como a flor inda em botão ceifada, / Em quanto aromas recendia pura; / Bem como a onda, quando mal formada, / Nos brancos frisos do areal murmura!
Bem como a aurora tímida que morre, / Em quanto os céus de rosicler matisa; / Bem como o sopro de ligeira brisa, / Que entre os olores da manhã discorre!
Mimosa espr’ança do Brasil, batendo / Ás férreas portas da existência, viste / O mundo aflito e a humanidade triste / Seu negro fado e sua dor sofrendo!
Cheio de compaixão atrás voltaste / Do horrifico espetáculo, tapando / Com as azas do anjo o rosto brando, / E no seio do Eterno te asylaste.
Morreste como aurora sem poente, / Como flor, que perfume inda exhalava, / Como o sopro da brisa recendente, / Como a onda, que apenas se formava!
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