Ao Dr. João Duarte Lisboa Serra
Gonçalves Dias (?–1864)
O começo
23 agosto.
Mais um pungir de acérrima saudade, / Mais um canto de lágrimas ardentes, / Oh! minha Harpa, - oh! minha Harpa desditosa.
Escuta, ó meu amigo: da minha alma / Foi uma lira outrora o instrumento; / Cantava nela amor, prazer, venturas, / Até que um dia a morte inexorável / Triste pranto de irmão veio arrancar-te!
As lágrimas dos olhos me caíram, / E a minha lira emudeceu de mágoa! / Então aventei eu que a vida inteira / Do bardo, era um perene sacerdócio / De lágrimas e dor; - tomei uma Harpa: / Na corda da aflição gemeu minha alma, / Foi meu primeiro canto um epicédio! / Minha alma batizou-se em pranto amargo, / Na frágua do sofrer purificou-se!
Lancei depois meus olhos sobre o mundo, / Cantor do sofrimento e da amargura; / E vi que a dor aos homens circundava, / Como em roda da terra o mar se estreita; / Que apenas desfrutamos, - miserandos! / Desbotado prazer entre mil dores, / - Uma rosa entre espinhos aguçados, / Um ramo entre mil vagas combatido.
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