A Minha Musa
Gonçalves Dias (?–1864)
O começo
Minha Musa não é como ninfa / Que se eleva das águas - gentil - / Co'um sorriso nos lábios mimosos, / Com requebros, com ar senhoril.
Nem lhe pousa nas faces redondas / Dos fagueiros anelos a cor; / Nesta terra não tem uma esp'rança, / Nesta terra não tem um amor.
Como fada de meigos encantos, / Não habita um palácio encantado, / Quer em meio de matas sombrias, / Quer à beira do mar levantado.
Não tem ela uma senda florida, / De perfumes, de flores bem cheia, / Onde vague com passos incertos, / Quando o céu de luzeiros se arreia.
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Não é como a de Horácio a minha Musa; / Nos soberbos alpendres dos Senhores / Não é que ela reside; / Ao banquete do grande em lauta mesa, / Onde gira o falerno em taças doiro, / Não é que ela preside.
Ela ama a solidão, ama o silêncio, / Ama o prado florido, a selva umbrosa / E da rola o carpir. / Ela ama a viração da tarde amena, / O sussurro das águas, os acentos / De profundo sentir.
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