A Noite (Gonçalves Dias)
Gonçalves Dias (?–1864)
O começo
Noite, melhor que o quem, dia não te ama! / Quem não vive mais brando em teo regaço! / Filinto.
Eu amo a noite solitária e muda, / Quando no vasto céu fitando os ollios, / Alem do escuro, que lhe tinge a face, / Alcanço deslumbrado / Milhões de sóes a divagar no espaço, / Como em salas de esplendido banquete / Mil tochas aromáticas ardendo / Entre nuvens dincenso!
Eu amo a noite taciturna e queda! / Amo a doce mudez que ela derrama, / E a fraca aragem pelas densas folhas / Do bosque murmurando: / Então, mau grado o véu que involve a terra, / A vista do que vela enxerga mundos, / E apesar do silencio, o ouvido escuta / Notas de ethereas harpas.
Eu amo a noite taciturna e queda! / Então parece que da vida as fontes / Mais fáceis correm, mais sonoras soão, / Mais fundas se abrem; / Então parece que mais pura a brisa / Corre, — que então mais funda e leve a fonte / Mana, — e que os sons então mais doce e triste / Da musica se espargem.
Texto do Wikisource em português, que só hospeda obra livre: domínio público ou licença livre (CC BY-SA 3.0). A ficha aponta de volta para a página de origem, que é a atribuição que a licença pede.