A Vila Maldita, Cidade de Deus
Gonçalves Dias (?–1864)
O começo
Peccata peccavit Jerusalem, et propter / ea instabilis fata est; omnes qui / glorificabant eam, spreverunt illam, quia / viderunt ignominiam ejus; ipsa autem / gemens conversa est retrorsum. / — Lament
I O imenso aposento a luz alaga / Com soberbo clarão, / E as mesas do banquete se devolvem / Pelo vasto salão;
E os instrumentos palpitantes soam / Frenética harmonia; / E o coro dos convivas se levanta / Pleno débria alegria!
Ali se ostenta o nobre vicioso / Rebuçado em orgulho, - o rico infame, / Cheio de mesquinhez, - o envilecido, / Imundo pobre no seu manto involto / De misérias, torpeza e vilanias; / - A prostituta que alardeia os vícios, / Menosprezando a castidade e a honra, / Sem pejo, sem pudor, dinfâmia eivada.
E o livre ditirambo, a atroz blasfêmia, / Os cantos imorais, canções impudicas, / Gritos e orgia envolta em negro manto / De fumo e vinho, - os ares aturdiam; / E muito além, no meio dalta noite, / Nos ecos, ruas, praças rebatiam.
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