A Mãe d'Água
Gonçalves Dias (?–1864)
O começo
A MÃE de AGUA. / «Minha mãe, olha aqui dentro, / Olha a bela crcatura, / Que dentro dágua se vê! / São douro os longos cabelos, / Gentil a doce figura, / Airosa, leve a estatura; / Olha, vê no fundo dágua / Que bela moça não é!
«Minha mãe, no fundo dágua / Vé essa mulher tão bela? / O sorrir dos lábios dela, / Inda mais doce que o teu, / É como a nuvem rosada / Que no romper da alvorada / Passa risonha no céu.
«Olha, mãe, olha depressa! / Inclina a leve cabeça / E nas mãozinhas resume / A fina trança mimosa, / E com pente de marfim!… / Olha agora que me avista / A bela moça formosa, / Como se fez toda rosa, / Toda candura e jasmim! / Dize, mãe, dize: tu julgas / Que ela se ri para mim!
«São seus lábios entre-abertos / Semilhantes a romã; / Tem ares de uma princesa, / E no entanto é tão medrosa!… / Inda mais que minha irmã. / Olha, mãe, sabes quem é / A bela moça formosa, / Que dentro dágua se vê!»
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