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Como Eu te Amo

Gonçalves Dias (?–1864)

Poesia3 min de leitura2 páginas

O começo

COMO EU TE AMO. / Como se ama o silencio, a luz, o aroma, / O orvalho numa flor, nos céus a estrela, / No largo mar a sombra de uma vela, / Que lá na extrema do horizonte assoma;

Como se ama o clarão da branca lua, / Da noite na mudez os sons da flauta, / As canções saudosissimas do nauta, / Quando em mole vai-vem a não flutua;

Como se ama das aves o gemido, / Da noite as sombras e do dia as cores, / Um céu com luzes, um jardim com flores, / Um canto quase em lagrimas sumido;

Como se ama o crepúsculo da aurora, / A mansa viração que o bosque ondeia, / O sussurro da fonte que serpeia, / Uma imagem risonha e sedutora;

Como se ama o calor e a luz querida, / A harmonia, o frescor, os sons, os céus, / O silencio, as cores, o perfume, a vida, / Aos pais e à pátria e à virtude e à Deos.

Assim eu te amo, assim; mais do que podem / Dizer-t’o os lábios meus, — mais do que vale / Cantar a voz do trovador cansada: / O que é belo, o que é justo, santo e grande / Amo em ti. — Por tudo quanto sofro, / Por quanto já sofri, por quanto ainda / Me resta de sofrer, por tudo eu te amo. / que espero, cobiço, almejo, ou temo / De ti, só de ti pende: oh! nunca saibas / Com quanto amor eu te amo, e de que fonte / Tão terna, quanto amarga o vou nutrindo!

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