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A Tarde (Gonçalves Dias)

Gonçalves Dias (?–1864)

Poesia4 min de leitura3 páginas

O começo

Ó tarde, oh bela tarde, oh meus amores, / Mãe da meditação, meu doce encanto! / Os rogos da minha alma enfim ouviste, / E grato refrigério vens trazer-lhe / No teu remansear prenhe de enlevos! / Em quanto de te ver gostam meus olhos, / Enquanto sinto a minha voz nos lábios, / Enquanto a morte me não rouba à vida, / Um hino em teu louvor minha alma exale, / Oh tarde, oh bela tarde, oh meus amores!

I É bela a noite, quando grave estende / Sobre a terra dormente o negro manto / De brilhantes estrelas recamado; / Mas nessa escuridão, nesse silêncio / Que ela consigo traz, há um quê de horrível / Que espanta e desespera e geme nalma; / Um quê de triste que nos lembra a morte! / No romper dalva há tanto amor, tal vida, / Há tantas cores, brilhantismo e pompa, / Que fascina, que atrai, que a amar convida; / Não pode suportá-la homem que sofre, / Órfãos de coração não podem vê-la.

Só tu, feliz, só tu, a todos prendes! / A mente, o coração, sentidos, olhos, / A ledice e a dor, o pranto e o riso, / Folgam de te avistar; - são teus, - és deles / Homem que sente dor folga contigo, / Homem que tem prazer folga de ver-te! / Contigo simpatizam, porque és bela, / Qu'és mãe de merencórios pensamentos, / Entre os céus e a terra êxtasis doce, / Entre dor e prazer celeste arroubo.

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