Ainda uma Vez - Adeus
Gonçalves Dias (?–1864)
O começo
Enfim te vejo! — enfim posso, / Curvado a teus pés, dizer-te, / Que não cessei de querer-te, / Pezar de quanto sofri. / Muito penei! Crúas ânsias, / Dos teus olhos afastado, / Houverão-me acabrunhado, / A não lembrar-me de ti!
De um mundo a outro impelido, / Derramei os meus lamentos / Nas surdas azas dos ventos, / Do mar na crespa cerviz! / Baldão, ludibrio da sorte / Em terra estranha, entre gente, / Que alheios males não sente, / Nem se condóe do infeliz!
Louco, aflito, a saciar-me / Dagravar minha ferida, / Tomou-me tédio da vida, / Passos da morte senti;. / Mas quase no passo extremo, / No ultimo arcar da esp’rança, / Tu me vieste à lembrança: / Quis viver mais e vivi!
Vivi; pois Deos me guardava / Para este logar e hora! / Depois de tanto, senhora, / Ver-te e falar-te outra vez; / Rever-me em teo rosto amigo, / Pensar em quanto hei perdido, / E este pranto dolorido / Deixar correr a teus pés.
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