O Gigante de Pedra
Gonçalves Dias (?–1864)
O começo — I.
Gigante orgulhoso de fero semblante, / Num leito de pedra lá jaz a dormir! / Em duro granito repousa o gigante / Que os raios somente podérão fundir.
Dormido atalaia no serro empinado / Devêra cuidoso, sanhudo velar; / O raio passando o deixou fulminado, / E à aurora que surge não há de acordar!
Co’os braços no peito cruzados nervosos, / Mais alto que as nuvens, os céus a encarar, / Seu corpo se estende por montes fragosos, / Seus pés sobranceiros se arrojão do mar!
De lavas ardentes seus membros fundidos / Avultão imensos: só Deos poderá / Rebelde lançá-lo dos montes erguidos, / Curvados ao peso que sobre lhes ’stá.
E o céu, e as estrelas, e os astros fulgentes / São velas, são tochas, são vivos brandões, / E o branco sudário são névoas algentes, / E o crepe que o cobre são negros bulcões.
Da noite que surge no manto fagueiro / Quiz Deos que se erguesse, de junto a seus pés, / A cruz sempre viva do sul no cruzeiro, / Deitada nos braços do eterno Moysés.
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