O Desterro de um Pobre Velho
Gonçalves Dias (?–1864)
O começo
A aurora vem despontando, / Não tarda o sol a raiar: / Cantam aves, - a natura / Já começa a respirar.
Bem mansa na branca areia / Onda queixosa murmura, / Bem mansa aragem fagueira / Entre a folhagem sussurra.
É hora cheia de encantos, / E hora cheia de amor; / A relva brilha enfeitada, / Mais fresca se mostra a flor.
Esbelta joga a fragata, / Como um corcel a nitrir; / Suspensa a amarra tem presa, / Suspensa, que vai partir.
Em demanda da fragata, / Leve barco vem vogando; / Nele um velho cujas faces / Mudo choro está cortando.
Quem era o velho tão nobre, / Que chorava, / Por assim deixar seus lares, / Que deixava?
"Ancião, por que te ausentas? / Corres tu trás de ventura? / Louco! a morte já vem perto. / Tens aberta a sepultura.
"Louco velho, já não sentes / Bater frouxo o coração?. / Oh! que o sente! - É lei dexílio / A que o leva em tal sazão!
"Não ver mais a cara pátria, / Não ver mais o que deixava, / Não ver nem filhos, nem filhas, / Nem o casal, que habitava!…
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