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Miserrimus (Gonçalves Dias)

Gonçalves Dias (?–1864)

Poesia3 min de leitura3 páginas

O começo

Quando o inverno chegou, - por sobre a terra / O robe secular espalha a coma, / Que o rábido tufão cortou de morte. / Despida e nua jaz a flor mimosa, / Agora hástea somente; e o sol brilhante / Despede a custo a luz que mal penetra / As nuvens trovejadas que o circundam.

Mas o inverno passou! - De novo assume / Virente rama o robe gigantesco, / A flor formosa e bela vem brotando, / E o sol, rei do horizonte, já rutila / Em céu de puro azul-brilhante.

Mas quando o desengano, qual tormenta / Que por desertos só valente reina, / Do quente coração arranca, esmaga / Esp'ranças, que o amor enfeitiçava, / Em vão a natureza ufana brilha, / Em vão de puro orvalho a flor se arreia, / Em vão dardeja o sol seus quentes raios, / Em vão!… que o coração jaz frio e murcho. / E não mais viverá! - que a alma sentida / Conhece que o amor é só mentira, / Que é mentira o prazer, mentira tudo!

Um dia apareceu um recém-nado, / Como a concha que o mar à praia arroja, / Cresceu; - qual cresce a planta em terra inculta / Que ninguém educou; - a chuva apenas. / Infante - viu de roda sepulturas, / Em que não atentou; - sonhos mimosos, / Acordado ou dormindo, lhe doiravam / A infância leve, dinocência rica. / Viu belo o ar, e terra, e céus, e mares, / Viu bela a natureza, como a noiva / Sorrindo em breve dia de noivado! / Então sentiu brotarem na sua alma / Sonhos de puro amor, sonhos de glória; / Sentiu no peito um mundo de esperanças, / Sentiu a força em si - patente o mundo.

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