Visões (Gonçalves Dias)
Gonçalves Dias (?–1864)
O começo
Naquele instante em que vacila a mente / Do sono ao despertar, quando pejada / Vem doutros mundos de visões etéreas; / Quando sobre a manhã surge brilhante / A luz da madrugada, - eu vi!… nem sonhos / Era a minha visão, real não era; / Mas tinha dambos o talvez. - Quem sabe? / Foi capricho falaz da fantasia, / Ou foi certo aventar deras venturas?
A ira do Senhor baixou tremenda / Sobre uma vasta capital! - em pedra / Tornou-se a gente impura. Muitos homens / Às portas férreas, largas, vi sentados. / Melhor do que um pintor ou estatuário / A morte, que de súbito os colhera / No ardor, no afã da vida, conservou-lhes / A ação - partida em meio, com tal força, / Que a mente seu malgrado a completava. / Um tinha os lábios entreabertos; outro / Parecia sorrir; mais longe aquele / Derramava um segredo, baixo, a medo, / Nos ouvidos do amigo; austero o guarda / Com rosto carregado e barba hirsuta, / Nas mãos calosas sopesava a lança. / Dos mercadores na comprida rua / Passavam muitos compradores; - este / Contava montes doiro; - à luz aquele…
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