Quadras da Minha Vida
Gonçalves Dias (?–1864)
O começo
I Houve tempo em que os meus olhos / Gostavam do sol brilhante, / E do negro véu da noite, / E da aurora cintilante.
Gostavam da branca nuvem / Em céu de azul espraiada, / Do terno gemer da fonte / Sobre pedras despenhada.
Gostavam das vivas cores / De bela flor vicejante, / E da voz imensa e forte / Do verde bosque ondeante.
Inteira a natureza me sorria! / A luz brilhante, o sussurrar da brisa, / O verde bosque, o rosicler daurora, / Estrelas, céus, e mar, e sol, e terra, / Desperança e damor minha alma ardente, / De luz e de calor meu peito enchiam. / Inteira a natureza parecia / Meus mais fundos, mais íntimos desejos / Perscrutar e cumprir; - almo sorriso / Parecia enfeitar co'os seus encantos, / Com todo o seu amor compor, doirá-lo, / Porque os meus olhos deslumbrados vissem-no, / Porque minha alma de o sentir folgasse.
Oh! quadra tão feliz! - Se ouvia a brisa / Nas folhas sussurrando, o som das águas, / Dos bosques o rugir; - se os desejava, / - O bosque, a brisa, a folha, o trepidante / Das águas murmurar prestes ouvia. / Se o sol doirava os céus, se a lua casta. / Se as tímidas estrelas cintilavam, / Se a flor desabrochava envolta em musgo, / - Era a flor que eu amava, - eram estrelas / Meus amores somente, o sol brilhante, / A lua merencória - os meus amores! / Oh! quadra tão feliz! - doce harmonia, / Acordo estreme de vontade e força, / Que atava minha vida à natureza! / Ela era para mim bem como a esposa / Recém-casada, pudica sorrindo; / Alma de noiva - coração de virgem, / Que a minha vida inteira…
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