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Palinódia (Gonçalves Dias)

Gonçalves Dias (?–1864)

Poesia3 min de leitura3 páginas

O começo

O céu não te dotou de formosura, / De atrativo exterior, e a natureza / Teu peito inficionou co’a vil torpeza / Dingrata condição falaz e impura! / Bocage

Se só por vós, Senhora, corpo e alma, / Apesar da aversão que tenho ao crime, / Inteiro me embucei nos seus andrajos, / Em tremedal de vícios;

Se só por vós descri do que era nobre, / Porque envolto em torpeza imunda e feia, / As vestes da virtude imaculada / Rebolquei-as no lodo;

Se só por vós persegue-me o remorso, / Que os dias da existência me consome, / E entre angústias cruéis minha alma anseia, / — Ludíbrio dos meus erros:

Consenti que a moral os seus direitos / Reivindique uma vez, e que a minha alma / Das lições que bebeu na pura infância / Uma hora se recorde!

Agora, agro censor, hão de os meus lábios, / Duras verdades trovejando em verso, / Fazer de vós, o que a razão não pôde, / — Mulher ou estátua!

Mentistes quando amor tínheis nos lábios. / Mentistes a compor meigos sorrisos, / Mentistes no olhar, na voz, no gesto… / Fostes bem falsa!…

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