O Trovador
Gonçalves Dias (?–1864)
O começo
Ele cantava tudo o que merece de ser cantado; / o que há na terra de grande e de santo - o amor e a virtude.
Numa terra antigamente / Existia um Trovador; / Na Lira sua inocente / Só cantava o seu amor.
Nenhum sarau se acabava / Sem a Lira de marfim, / Pois cantar tão alto e doce / Nunca alguém ouvira assim.
E quer donzela, quer dona, / Que sentira comoção / Pular-lhe nalma, escutando / Do Trovador a canção;
De jasmins e de açucenas / A fronte sua adornou; / Mas só a rosa da amada / Na Lira amante poisou.
E o Trovador conheceu / Que era traído - por fim; / Pôs-se a andar, e só se ouvia / Nos seus lábios: ai de mim!
Enlutou de negro fumo / A rosa de seu amor, / Que meia oculta se via / Na gorra do Trovador;
Como virgem bela, morta / Da idade na linda flor, / Que parece, o dó trajando, / Inda sorrir-se de amor.
No meio do seu caminho / Gentil donzela encontrou: / Canta - disse; e as cordas doiro / Vibrando, o triste cantou.
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