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O Canto do Piaga

Gonçalves Dias (?–1864)

Poesia2 min de leitura2 páginas

O começo

O' Guerreiros da Taba sagrada, / O' Guerreiros da Tribo Tupi, / Falam Deuses nos cantos do Piaga, / O' Guerreiros, meus cantos ouvi.

Esta noite — era a lua já morta — / Anhangá me vedava sonhar; / Eis na horrível caverna, que habito, / Rouca voz começou-me a chamar.

Abro os olhos, inquieto, medroso, / Manitôs! que prodígios que vi! / Arde o pau de resina fumosa, / Não fui eu, não fui eu, que o acendi!

Eis rebenta a meus pés um fantasma, / Um fantasma dimensa extensão; / Liso crânio repousa a meu lado, / Feia cobra se enrosca no chão.

O meu sangue gelou-se nas veias, / Todo inteiro — ossos, carnes — tremi, / Frio horror me coou pelos membros, / Frio vento no rosto senti.

Era feio, medonho, tremendo, / O' Guerreiros, o espectro que eu vi. / Falam Deuses nos cantos do Piaga, / O' Guerreiros, meus cantos ouvi!

Porque dormes, ó Piaga divino? / Começou-me a Visão a falar, / Porque dormes? O sacro instrumento / De per si já começa a vibrar.

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