O Pirata
Gonçalves Dias (?–1864)
O começo
Nas asas breves do tempo / Um ano e outro passou, / E Lia sempre formosa / Novos amores tomou.
Novo amante mão de esposo, / De mimos cheia, lh'of'rece; / E bela, apesar de ingrata, / Do que a amou Lia se esquece.
Do que a amou que longe pára, / Do que a amou, que pensa nela, / Pensando encontrar firmeza / Em Lia, que era tão bela!
Nesse palácio deserto / Já luzes se vêm luzir, / Que vem nas sedas, nos vidros / Cambiantes refletir.
Os ecos alegres soam, / Soa ruidosa harmonia, / Soam vozes de ternura, / Sons de festa e dalegria.
E qual ave que em silêncio / A face do mar desflora, / À noite bela fragata / Chega ao porto, amaina, ancora.
Cai da popa e fere as ondas / Inquieta, esguia falua, / Que resvala sobre as águas / Na esteira que traça a lua.
Já na vácua praia toca; / Um vulto em terra saltou, / Que na longa escadaria / Presago e torvo enfiou..
Malfadado! por que aportas / A este sítio fatal! / Queres o brilho aumentar / Das bodas do teu rival?
Texto do Wikisource em português, que só hospeda obra livre: domínio público ou licença livre (CC BY-SA 3.0). A ficha aponta de volta para a página de origem, que é a atribuição que a licença pede.