Envelhecer
Cruz e Sousa (?–1898)
O começo
ENVELHECER / Flôr dindolência, fina e melindrosa, / Captivante sereia da esperança, / Cêdo tiveste a crença dolorosa / De quanto a vida é velha e como cansa…
Na lânguida, na morna morbideza / Do teu amargo e triste celibato, / Tu te fechaste para a Natureza / Como a lua no célico recato.
No fundo delicado dos teus seios / Foste esconder os sentimentos vagos / E todos os dolentes devaneios / Das estrelas sonhando à flor dos lagos
Todas as altas céllas de ouro e prata / De teu claustro de Virgem sem afeto / Fecharam sobre tu’alma ti: norata / Austéras portas, com fragôr secreto.
No entanto havia no teu corpo ondeante / As delicias subtis de um céu fugace… / E era talvez o encanto mais picante / A graça aldeã do teu nariz rapace.
Teus olhos tinham certa mágoa nobre / E certo fundo de doirado abismo. / E a malicia que logo se descóbre / Em olhos de felino narcotismo.
Mas na boca trazias todo o oculto / Tóque sombrio de ironia grave… / E como que as belezas do teu vulto / Abriam azas peregrinas de ave.
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