Anjos Rebelados
Cruz e Sousa (?–1898)
O começo
Trindade de tristes e de trêmulos, sombrio terceto do Dante, todas as tardes, pela violácea bruma poente, aquelas velhas obscuras apareciam, solitárias, soturnas, e tomavam diretamente o nebuloso caminho do Campo Santo.
As suas três altas e graves figuras de impressão violenta, talhadas em relevo forte, evocavam mesmo, juntas, um titânico terceto dantesco, pela expressão funda e singular, pela majestade sagrada que ressaltava dos seus semblantes pálidos e macerados.
Mas, quem olhasse bem para elas, quem lhes penetrasse as psicologias profundas, sentiria que através de toda essa austera e estranha fisionomia pairava uma candura diáfana, a meiga e terna suavidade de Grandes Anjos brancos e piedosos.
O encanto de um sonho, o sentimento de uma infinita nostalgia, dessa nostalgia de seres emigrados de regiões longínquas e misteriosas, nimbavam os seus perfis assinalados de uma unção celeste.
Era como se elas tivessem realmente descido dos céus, brancas e arcangélicas, as grandes asas excelsas palpitando, o grande resplendor das Onipotências e das Graças nas frontes intemeratas, para purificar e tornar perfeitas as pobres almas na Terra.
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