A Noite
Cruz e Sousa (?–1898)
O começo
Ó doce abismo estrelado, nirvana sonâmbulo, taça negra de aromas quentes, onde eu bebo o elixir do esquecimento e do sonho! Como eu amo todas as tuas majestades, todas as tuas estrelas, todos os teus ventos, todas as tuas tempestades, todas as tuas formas e forças! Como eu sinto os perfumes que vêm das grandes rosas místicas dos teus maios; os eflúvios vibrantes, cândidos e finos dos teus junhos; o grasnar dos teus abutres e o claro bater das asas dos teus anjos! Como eu aspiro sedento todos esses cheiros salgados do mar dominador, essa vida aromai das folhagens, das selvas reverdecidas com os teus orvalhos revigoradores, com a tua esquiva castidade misteriosa!
Ah! como eu te amo, Noite! Como a tua eloquência muda me fala, me impressiona e me chama, Aparição seráfica, fabulosa irmã do Caos e das Legendas!
O peito cheio de vibrações ansiosas, a alma em cânticos de amor, os olhos iluminados por esplendores secretos, como é maravilhoso vagar no solene tabernáculo dos teus silêncios, no in pace do teu Sonho!
Texto do Wikisource em português, que só hospeda obra livre: domínio público ou licença livre (CC BY-SA 3.0). A ficha aponta de volta para a página de origem, que é a atribuição que a licença pede.