A Nódoa
Cruz e Sousa (?–1898)
O começo
Naquela hora de superexcitação nervosa, tarde na noite nevoenta em que os ventos lugubremente grasnavam, rondando, rondando, Maurício entrou agitado da rua…
Via-se bem, pela lividez espectral do seu rosto, os tumultos sinistros que trazia consigo.
Com o cérebro escaldando, numa temperatura mental inconcebível, parecia que alguma cousa dentro do seu ser estava sendo guilhotinada e que grandes, caudalosas torrentes de sangue vivo, quente, o alagavam interiormente, deixando-o exangue, desfalecido…
Era, na verdade, um aspecto extravagante o desse cardíaco lascivo, desse neurastênico que o álcool andava aos poucos devastando e povoando já das suas visões trementes e delirantes, lá do fundo absíntico das impenitentes boêmias; desse sombrio e ferrenho misantropo fechado ao alto da sua velha torre torva de melancolia, sentindo em torno o mundo, grosso mar vasto, ululando deprecações…
Cabelos em desalinho, olhos estupefatos, boca num espasmo de angústia, mãos convulsas e avelhantadas, braços tateando o ar como garras, pernas trêmulas, tudo naquela desgraçada matéria determinava uma vulcanização muito íntima, um desespero muito particular, talvez o desmoronamento absoluto.
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