A Sombra
Cruz e Sousa (?–1898)
O começo
Ó Dor das Origens milenárias! Divina Consagração das Lágrimas! Seio profundo e misterioso das Apoteoses negras do Gemido e do Soluço! Dor das supremas Dores! Dor da imponderável Saudade! Que tu sejas neste momento comigo e me unjas com a tua espiritualizante graça…
Sim! Devia ser em sonhos, num fundo de fosforescências e neblinas, que eu vi a tua sombra, o teu vulto — certo a tua carne, o teu corpo, palpitando vida, caminhando para mim, espectral e ao mesmo tempo vivo, dessa vida que respira, que fala, que olha, que olfata, que gesticula e ondula…
Sim! foi em sonhos!
Não sei que estado eu experimentava em certa hora, que estado de nervos, de sensibilidade, de vibração; não sei que música dolente de melancolia, nem que amargurantes tristezas patéticas de saudade me invadiam em certa hora, que distintamente, nitidamente vi! — vi e senti que estava perto de mim aquela Sombra santa e amada que eu perdera um dia no Letes do esquecimento que a Morte cava…
Texto do Wikisource em português, que só hospeda obra livre: domínio público ou licença livre (CC BY-SA 3.0). A ficha aponta de volta para a página de origem, que é a atribuição que a licença pede.