A Janela
Cruz e Sousa (?–1898)
O começo
Dava para o mar a larga janela verde, em frente às águas também verdes e turbilhonante às vezes, outras limpidamente quietas, num remanso de golfo sereno.
Velas saudosas de navios, enfunadas ao impulso das correntes aéreas; mastreações caprichosas e confusas, misteriosamente interrogando o céu; os montes ao fundo, formando panoramas álacres com seus cabeços azulados e colossais, e a grandeza olímpica das ondas fechadas pela natureza numa extensa área do terreno: tudo gozava e sentia além viver a janela; e, ao longo de indefinida barra dos horizontes esfuminhados, a linha vaga, melancolizada, das imensas distâncias intermináveis.
Dum lado e doutro da janela, subindo-a, galopando-a festivamente em caracóis negligentes, a expansão, a nevrose de folhagens trepidantes que busca em ânsias o ar…
Rosas vermelhas e rosas jaldes alastravam numa primaveril e casta alegria radiosa de Via-Láctea, o quadrado verde da janela, enquanto amorosamente um jasmineiro florido, entrelaçado às rosas, com flores alvas e cheirosas desabrochadas em forma de pequeninas estrelas, punha um encanto romântico e noival de janela de Julieta na larga janela verde que dava para o mar.
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