Pandemonium
Cruz e Sousa (?–1898)
O começo
PANDEMONIUM (A Mauricio Junim) / Em fundo de tristeza e de agonia / O teu perfil passa-me noite e dia.
Afflicto, aflito, amargamente aflito, / Num gesto estranho que parece um grito.
E ondula e ondula e palpitando vaga, / Como profunda, como velha chaga.
E paira sobre ergástulos e abismos / Que abrem as bocas cheias de exorcismos.
Com os olhos vêsgos, a flutuar desguelha, / Ségue-te átraz uma visão vermelha.
Uma visão gerada do teu sangue / Quando no Horrôr te debateste exangue.
Uma visão que é tua sombra pura / Rodando na mais trágica tortura.
A sombra dos supremos sofrimentos / Que te abaláram como negros ventos.
E a sombra as tuas voltas acompanha / Sangrenta, horrível, assombrosa, estranha.
E o teu perfil no vácuo perpassando / Vê rubros caracteres fiammejando.
Vê rubros caracteres singulares / De todos os festins de Balthazares.
Por toda a parte escrito em fogo eterno: / Inferno! Inferno! Inferno! Inferno! Inferno!
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