Dolências (Cruz e Sousa)
Cruz e Sousa (?–1898)
O começo
Tu, na emoção desse encanto doloroso e acerbo da Arte, te sentirás, um dia, velho, fatigado, como um peregrino que percorreu ansiosamente todas as vias-sacras torturantes e perigosas.
Essa maravilhosa seiva de pensamentos, toda essa púrpura espiritual, as vivas forças impetuosas do teu sangue, agindo poderosamente no cérebro, irão aos poucos, momento a momento, desaparecendo, num brilho esmaecido, vago, o brilho branco e virgem das estrelas glaciais.
A tualma será condenada à solidão e silêncio, como certas formosuras claustrais de monjas que brumalmente aparecem por entre as celas, deixando no espírito de quem as vê, quase que o mistério de um religioso esplendor…
E, já assim emudecido e gelado para as nobres sensações do Amor, ficarás então como se estivesses morto - sem cabelos, sem dentes, sem nariz, sem olhos - sem nenhumas dessas expressões físicas que tornam os seres humanos harmoniosamente perfeitos.
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