O Conde Lopo
Álvares de Azevedo (?–1852)
O começo — Prefácio
O fim da poesia é o belo .
Bello material, belo moral; do belo por assim dizer mimoso, até esse belo arrebatador que se chama sublime — desde o belo cálix da flor alvasinha a branquear ao bando de irerês marinhas deslizando garrido na safira das águas — como a nuvemzinha irisada da tarde na limpidez do céu — até ao belo da catarata mugidora a despenhar-se das quebradas negras da montanha, em lençóis dágua, e a bramir lá em baixo no despenhadeiro com suas vagas de escuma — desde o belo da estatua de mármore da Venus Callypigia até ao belo do Jupiter Capitolino, desde a estrela até ao rugir do trovão, — sempre é o belo — Pois o que é o sublime senão o grau mais ardente do belo?…
O fim da poesia é portanto o belo ou, se melhor se quiser, — a poesia é o belo. — A missão do poeta é pois o apostolado da beleza, o dever de esfolhar coroas sobre todas as quadras da vida, enfeitá-las, enfeitiçá-las; e aí desses jardins da natureza colher as flores perfumosas da capela de sua lira, de sua harpa de trovador.
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