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Glória Moribunda

Álvares de Azevedo (?–1852)

Poesia10 min de leitura9 páginas

O começo

É uma visão medonha uma caveira? / Não tremas de pavor, ergue-a do lodo. / Foi a cabeça ardente de um poeta, / Outrora à sombra dos cabelos loiros, / Quando o reflexo do viver fogoso / Ali dentro animava o pensamento,

Esta fronte era bela. Aqui nas faces / Formosa palidez cobria o rosto… / Nessas órbitas-ocas, denegridas! - / Como era puro seu olhar sombrio!

Agora tudo é cinza. Resta apenas / A caveira que a alma em si guardava, / Como a concha no mar encerra a pérola, / Como a caçoula a mirra incandescente.

Tu outrora talvez desses-lhe um beijo; / Por que repugnas levantá-la agora? / Olha-a comigo! Que espaçosa fronte! / Quanta vida ali dentro fermentava, / Como a seiva nos ramos do arvoredo! / E a sede em fogo das ideias vivas / Onde está? onde foi? Essa alma errante / Que um dia no viver passou cantando, / Como canta na treva um vagabundo, / Perdeu-se acaso no sombrio vento, / Como noturna lâmpada, apagou-se? / E a centelha da vida, o eletrismo / Que as fibras tremulantes agitava / Morreu para animar futuras vidas?

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