Anima Mea (Álvares de Azevedo)
Álvares de Azevedo (?–1852)
O começo
E como a vida é bela e doce e amável! / Não presta o espinhal a sombra ao leito / Do pastor do rebanho vagaroso, / Melhor que as sedas do lençol noturno / Onde o pávido rei dormir não pode? / SHAKESPEARE, Henrique VI, 3ª p.
Quando nas sestas do verão saudoso / A sombra cai nos laranjais do vale, / Onde o vento adormece e se perfuma… / E os raios doiro, cintilando vivos, / Como chuva encantada se gotejam / Nas folhas do arvoredo recendente, / Parece que de afã dorme a natura / E as aves silenciosas se mergulham / No grato asilo da cheirosa sombra.
E que silêncio então pelas campinas!… / A flor aberta na manhã mimosa / E que os estos do sol destio murcham / Cerra as folhas doridas e procura / Da grama no frescor doentio leito. / É doce então das folhas no silêncio / Penetrar o mistério da floresta, / Ou reclinado à sombra da mangueira / Um momento dormir, sonhar um pouco! / Ninguém que turve os sonhos de mancebo, / Ninguém que o indolente adormecido / Roube das ilusões que o acalentam / E do mole dormir o chame à vida!
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