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Boêmios

Álvares de Azevedo (?–1852)

Poesia19 min de leitura17 páginas

O começo

A cena passa-se na Itália, no século XVI. Uma rua escura e deserta. Alta noite. Numa esquina uma imagem de Madona em seu nicho alumiado por uma lâmpada.

Puff dorme no chão abraçando uma garrafa. Nini entra tocando guitarra. Dão 5 horas.

NINI / Olá! que fazes, Puff? dormes na rua?

PUFF, acordando / Não durmo… Penso.

NINI / Estás enamorado? / E deitado na pedra acaso esperas / O abrir de uma janela? Estás cioso / E co'a botelha em vez de durindana / Aguardas o rival?

PUFF / Ceei à farta / Na taverna do Sapo e das Três Cobras… / Faço o quilo… ao repouso me abandono. / Como o Papa Alexandre ou como um Turco, / Me entrego ao far niente e bem a gosto / Descanso na calçada imaginando.

NINI / Embalde quis dormir. Na minha mente / Fermenta um mundo novo que desperta. / Escuta, Puff: eu sinto no meu crânio, / Como em seio de mãe, um feto vivo… / Na minha insônia vela o pensamento: / Os poetas passados e futuros / Vou todos ofuscar… Aqui no cérebro / Tenho um grande poema. Hei de escrevê-lo… / É certa a glória minha!

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