A Harmonia
Álvares de Azevedo (?–1852)
O começo
Meu Deus! se às vezes, na passada vida, / Eu tive sensações que emudeciam / Essa descrença que me dói na vida / E, como orvalho que a manhã vapora, / Em seus raios de luz a Deus me erguiam / Foi quando às vezes a modinha doce / Ao sol de minha terra me embalava / E quando as árias de Bellini pálido / Em lábios de Italiana estremeciam!
Ó santa Malibran! fora tão doce / Pelas noites suaves do silêncio / Nas lágrimas de amor, nos teus suspiros,
Na agonia de um beijo, ouvir gemendo / Entre meus sonhos tua voz divina!
Ó Paganini! quando moribundo / Inda a rabeca ao peito comprimias, / Se o hálito de Deus, essa alma danjo / Que das fibras do peito cavernoso / Arquejava nas cordas entornando / Murmúrios desperança e de ventura, / Se a alma de teu viver roçou passando / Nalgum lábio sedento de poesia, / Numa alma de mulher adormecida, / Se algum seio tremeu ao concebê-lo… / Esse alento de vida e de futuro / — Foi o teu seio, Malibran divina!
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