Livros › Álvares de Azevedo › Era um Anjo do Céu

Capa de Era um Anjo do Céu

Era um Anjo do Céu

Álvares de Azevedo (?–1852)

Poesia3 min de leitura3 páginas

O começo

I Era um anjo do céu — de aéreas nuvens / Nalvo luar, em sonho vaporoso / Balouçado — suave na tristeza, / Em lago sem rumor, ermo de brizas.

E era a solta madeixa destransada / Sobre as nuvens do colo como um raio / Do sol ao madrugar espreguiçado / De amanhecer por entre as brancas névoas, / Com que a noite cobriu da terra a sono / — Qual das vagas à flor esteira doiro / Que a lua ao acordar lânguida estende / — Quais flòres napoteose de Santa / Por mãos de Cherubim nos céus juncadas, / Loiros como o Oriente.

£ os olhos cor de eco, danil tão puro, / Nêxtase melancólico enlevados. / Os céus mirando em seu cismar virgineo, / Erão flor azulada a quem a aurora / Tremelêa uma perola de roscio.

E amei o Seraphim descido à noite / Dethereas regiões à minha vida

Qual um raio de luz adamantina, / Multicôr, irisado de uma auréola, / Desprendido do céu sobre minh’alma. / Qual em queda palúde à noite, às vezes, / Uma estrela sozinha vem mirar-se, / Erma nos céus desertos, tal nas trevas / Do viver me era o anjo; — e era uma rosa / Recendente de odores doutra vida / Melodiosa de cânticos damores / Que a brisa lhe soprara la no Eden / — Despegada da c’roa dalgum anjo / No remontar aos céus — ainda pura / Dos bafejos das auras deste mundo / — Desfolhada ao cair em minha fronte — / Que eu amei com amor de todo o peito!

Texto do Wikisource em português, que só hospeda obra livre: domínio público ou licença livre (CC BY-SA 3.0). A ficha aponta de volta para a página de origem, que é a atribuição que a licença pede.

Mais de Álvares de Azevedo