Murmúrios da Tarde
Castro Alves (?–1871)
O começo
Ontem à tarde, quando o sol morria, / A natureza era um poema santo, / De cada moita a escuridão saia, / De cada gruta rebentava um canto, / Ontem à tarde, quando o sol morria. / Do céu azul na profundeza escura
Brilhava a estrela, como um fruto louro, / E qual a foice, que no chão fulgura, / Mostrava a lua o semicirc'lo douro, / Do céu azul na profundeza escura. / Larga harmonia embalsamava os ares! / Cantava o ninho-suspirava o lago…
E a verde pluma dos sutis palmares / Tinha das ondas o murmúrio vago… / Larga harmonia embalsamava os ares. / Era dos seres a harmonia imensa, / Vago concerto de saudade infinda! / "Sol — não me deixes", diz a vaga extensa,
"Aura-não fujas", diz a flor mais linda; / Era dos seres a harmonia imensa! / "Leva-me! leva-me em teu seio amigo" / Dizia às nuvens o choroso orvalho, / "Rola que foges", diz o ninho antigo, / 'Leva-me ainda para um novo galho…
Leva-me! leva-me em teu seio amigo." / "Dá-me inda um beijo, antes que a noite venha!
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