Adeus, Meu Canto
Castro Alves (?–1871)
O começo
Adeus, meu canto! É a hora da partida… / O oceano do povo s'encapela. / Filho da tempestade, irmão do raio, / Lança teu grito ao vento da procela.
O inverno envolto em mantos de geada / Cresta a rosa de amor que além se erguera… / Ave de arribação, voa, anuncia / Da liberdade a santa primavera.
É preciso partir, aos horizontes / Mandar o grito errante da vedeta. / Ergue-te, ó luz! — estrela para o povo, / — Para os tiranos — lúgubre cometa.
Adeus, meu canto! Na revolta praça / Ruge o clarim tremendo da batalha. / Águia — talvez as asas te espedacem, / Bandeira — talvez rasgue-te a metralha.
Mas não importa a ti, que no banquete / O manto sibarita não trajaste —, / Que se louros não tens na altiva fronte / Também da orgia a coroa renegaste.
A ti que herdeiro duma raça livre / Tomaste o velho arnês e a cota darmas; / E no ginete que escarvava os vales / A corneta esperaste dos alarmas.
É tempo agora pra quem sonha a glória / E a luta… e a luta, essa fatal fornalha, / Onde referve o bronze das estátuas, / Que a mão dos sec'los no futuro talha …
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