Diálogo dos Ecos
Castro Alves (?–1871)
O começo
E chegou-se p'ra a vivenda / Risonho, calmo, feliz… / Escutou… mas só ao longe / Cantavam as juritis… / Murmurou: "Vou surpr'endê-la!" / E a porta ao toque cedeu… / "Talvez agora sonhando / Diz meu nome o lábio seu, / Que a dormir nada prevê…"
E o eco responde: — Vê!…
"Como a casa está tão triste / Que aperto no coração!… / Maria!… Ninguém responde! / Maria, não ouves, não?… / Aqui vejo uma saudade / Nos braços de sua cruz… / Que querem dizer tais prantos, / Que rolam tantos, tantos, / Sobre as faces da saudade / Sobre os braços de Jesus?… / Oh! quem me empresta uma luz?… / Quem me arranca a ansiedade, / Que no meu peito nasceu? / Quem deste negro mistério / Me rasga o sombrio véu?…"
E o eco responde: — Eu!…
E chegou-se para o leito / Da casta flor do sertão… / Apertou co'a mão convulsa / O punhal e o coração!… / Stava inda tépido o ninho / Cheio de aromas suaves… / E — como a pena, que as aves / Deixam no musgo ao voar, — / Um anel de seus cabelos / Jazia cortado a esmo / Como relíquia no altar!… / Talvez prendendo nos elos / Mil suspiros, mil anelos, / Mil soluços, mil desvelos, / Que ela deu-lhes p'ra guardar!… / E o pranto em baga a rolar… / "Onde a pomba foi perder-se? / Que céu minha estrela encerra? / Maria, pobre criança, / Que fazes tu sobre a terra?"
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