Sensibilidade
Cruz e Sousa (?–1898)
O começo
Com os seus lindos bandôs brancos e o seu rendado mantelete de vidrilhos, aquela doce velhice tinha, apesar de enrugada e trêmula, um certo encanto nobre.
Fazia lembrar uma gravura antiga e grave, dessas, solenes e vagas, que pousam tristes, quase apagadas de traço, esmaecidas na tela, mas saudosas, ao fundo de algumas salas severas.
O seu nome carinhoso e parnasiano, recordava à primeira vista, pelo esmalte claro das sílabas, a forma de delicada porcelana, um fino e precioso mosaico ou os embutidos luxuosos dos charões.
E esse nome, aveludadamente azul — Lúcia — cantava-me ao ouvido com a doçura, a terna suavidade da mais íntima, penetrante carícia.
Rara e obscura existência, cabeça embranquecida nos gelos das sombrias dores ignoradas e apunhalantes, Lúcia, no entanto, andava dentre auréolas invisíveis de bem-aventurança, dentre etéreas redomas de clemência divina, como se nunca roçasse as diáfanas e níveas asas sutis das suas ilusões e reminiscências no lutulento, letífico charco da terra…
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