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Desta Vez Venho Triste, Bons Leitores

Luís da Gama

Poesia5 min de leitura4 páginas

O começo

O bom Democrito ria / Do que a nós nos causa dor; / Elle mui bem o sabia: / Yamos nós também, senhor, / Fazer o que ele fazia. / (N. Tolentíno)

Desta vez venho triste, bons leitores, / Que lavram-me no peito acerbas dores. / Já meus olhos cativos da paixão, / Voltados lacrimosos para o chão / Não sentem na pupila dilatada / Os fulgores da roxa madrugada; / Nem os trinos saudosos dos alados / Cantores da floresta enamorados / Os prazeres dispertam, que n’est’alma

Brincavam brandamente em doce calma. / Imagem da tristeza eu sou valente, / Que trago o luto impresso no semblante. / A causa deste mal, leitor querido, / Eu passo relatar inda ferido.

De jovem pudibunda casta e bela, / Por quem paixão nutri, a mais singela, / E que hoje de hymineu presa nos laços / Entrega-se aos prazeres noutros braços, / Guardava com amor, que me mantinha, / A fagueira e mimosa cadelinha. / No meu leito dormia; si velava, / A testa me lambia, a lisa calva; / Lambia-me o nariz, a boca…. tudo, / Ao ver-me resomnar tam quedo e mudo. / Té dos pés me lamber não tinha pejo, / Julgando em cada calo ter um queijo.

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