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O Velho Namorado

Luís da Gama

Poesia2 min de leitura2 páginas

O começo

Pobre velho! Estás perdido / Se nesse couro tão duro, / Pôde ainda fazer-te um furo / Uma seta de Cupido! / Desse mal accommetido, / Remedio te não darão; / Que nessa idade a paixão, / Bem que assim te não pareça, / E’ moléstia da cabeça, / Que não sente o coração

(F. X. de Novaes.)

Um velho demente, / Mimoso ratão, / Fiado em Cupido, / Quiz ser Maganão .

Janeiros sessenta / Contava o patola, / Com rugas na cara, / Com ar de farçola.

Gorducho e roliço, / Qual porco catête; / Cabeça de coco, / Nariz de pivete.

De pança crescida, / Andar de garoto, / Franzido sobr’olho, / Olhar de marôto,

Cedendo à loucura, / Que dele zombava, / A barba e cabelo / Cuidoso pintava.

Brunia os sapatos, / O fato escovava; / Na destra grosseira / Bengalla empunhava.

Se via à janela / Mocinha dengosa; / De lindo semblante / E lábios de rosa:

Então, derretido, / O velho lapuz, / Saltava, gingava, / Qual jovem de truz.

Se a bela formosa, / Por mofa, sorria, / O pobre do punga / Alentos bebia.

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