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A Pitada

Luís da Gama

Poesia2 min de leitura2 páginas

O começo

A pitada é cousa grande, / Vem de engenho sublimado; / E’ capaz de tirar monco / Do nariz mais confiado.

Certo Papa alti-potente, / Dela tendo experiencia, / Suspendeu suas tomadas, / Por temer sua influencia.

Não respeita velho ou moço, / Seja preto ou cor de giz; / Sahe do bote para a caixa, / E da caixa p’ra o nariz.

E’ prazer que não se explica, / Ardorzinho que consola, / Vicio honesto, innocentinho, / Protegido pela estola.

Contra o peso da cabeça, / E’ remédio tão gabado. / Que o não deixa um só momento / Todo o homem que é casado.

Toma a velha, a moça toma, / Toma a negra, toma a branca, / Toma o rico, toma o pobre, / Tendo a venta sempre franca.

Té nos lybicos desertos, / Toma o bárbaro gentio, / Torvo esturro cor de barro, / Recrestado ao sol de estio.

Oh! pitada milagrosa, / Pitadinha portentosa! / Eu quisera ser um Dante, / Ter uma harpa resonante / P’ra cantar a tua gloria, / Sobre as aras da memoria. / Não te zangues, pitadinha, / Pitadinha amarellinha; / Pobre filho da tarimba, / Vou cantar-te na marimba. / Attendei, oh tomadores, / Que eu começo os meus louvores! / E’ tão bela, é tão gabada / A virtude da pitada, / Que não há quem lhe resista, / Seja cego ou tenha vista! / Nem a velha recurvada, / Nem a moça enamorada, / Nem o padre, nem o frade, / Seja leigo ou seja abade, / São capazes de fugir, / Evitar ou resistir, / A’ tendencia exacerbada, / Pela força da pitada!

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