Piedosa
Cruz e Sousa (?–1898)
O começo
Não sei por que, magoada Flor sem glória, / A tua voz de trêmula meiguice / Desperta em mim a mocidade flórea / De sentimentos que não tem velhice.
Guslas de um céu remotamente mudo / Gemem plangentes nessa voz que voa / E através dela, abençoando tudo, / Um luar de perdões desabotoa.
Vejo-te então sublimemente triste / E excelsa e doce, num anseio lento, / Vagando como um ser que não existe, / Transfigurada pelo Sofrimento.
Mas, não sei como, vejo-te por brumas, / Além da de ouro constelada Porta, / Na ondulação das lívidas espumas, / Morta, já morta, muito morta, morta…
E sinto logo esse supremo e sábio / Travo da dor, se morta te antevejo, / Essa macabra contração de lábio / Que morde e tantaliza o meu desejo.
Fico sempre a cismar, se tu morresses / Que angustia fina me laceraria, / Que músicas de céus saudosos, desses / Céus infinitos sobre mim fluiria…
Que anjos brancos soberbos, deslumbrantes, / Resplandecentes nos broqueis das vestes, / Claros e altos voariam flamejantes / Para buscar-te, dos Azuis Celestes.
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