Terceiro Féretro - Carolina
Cruz e Sousa (?–1898)
O começo
Esta, Carolina, uma flor infernal de sangue e treva que a Angústia fecundou.
Esta, a harpa maior, a harpa da Dor, cujas cordas são mais puras, mais admiráveis e onde mais alto e majestoso chora todo o incomparável Intangível da minha Saudade.
Este féretro é um oceano rasgado de tempestades, de ventos imprecativos, anatematizadores e negros.
Fluidifica-se deste féretro uma música bárbara de sensibilidade, de martírio.
Aberto diante de mim, assim como eu o estou vendo aqui, que sugestões singulares me traz, que despedaçamentos me recorda, que sombrios idílios e delírios!
Ah! na vida avara como os sentimentos são avaros, como o pensamento humano é avaro para perscrutar uma existência assim!
Onde estão os ascetas que se martirizaram, onde estão os apóstolos que creram, onde estão os santos que ciliciaram e que escutaram de perto, mudos, o eloquente silêncio da Dor, para virem agora, aqui, comigo, aqui, com a minh'alma, traduzir os recônditos segredos que aí estão nesse féretro, penetrar nos ergástulos sem nome que aqui estão, nessa alma.
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