Campagnarde
Cruz e Sousa (?–1898)
O começo
O dia abriu um explosão doiro, dum oiro inflamado de forja, trescalando perfumes, cheirando acremente à terra.
Tu, gárrula vivandeira dos prados, que ao primeiro rumor sonoro do teu coração amoroso, como ao alegre rufo bizarro dum tambor de guerra ou à esfuziante vibração matinal de uma trompa de caça, toda estremeces e fremes, voltas agora púrpura dos campos onde te fecundaste, desabrochaste e floriste logo em papoula.
E voltas mais púbere, mais virtual, mais mulher, porque sorveste o leite o leite virginal e sadio aos abundantes seios da Natureza.
Quando para lá foste, o teu corpo frágil, tênue, traspassado do azulado enraizamento arterial das veias, era quase diáfano, transparente, vitrescível quase, através do qual bem facilmente a aurora coaria os seus flavos raios rútilos, como através de um delicado e aromático filó finíssimo, cor-de-rosa e translúcido.
Além disso, quando para lá foste, eras infantil ainda, ainda a ave implume, e entrarias daí por diante, como por uma zona de sol, nesse luxurioso período genesíaco da mulher, quando suas formas se ampliam, se completam e perdem essa volatilidade aérea, o borboletismo, essa tonalidade vaporosa da primitiva graça, para irem aos poucos adquirindo opulências, exuberante vigor germinativo no sangue que as alimenta, enlabareda e fecunda, arredonda e turgesce triunfais e alucinantes no colo as duas polposas saliência carnudas, das quais, em busca da instintiva subsistência, pende, mais tarde, como astros no firmamento, o encanto virgem dos filhos.
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