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Capa de Tintas Marinhas

Tintas Marinhas

Cruz e Sousa (?–1898)

Filosofia2 min de leitura2 páginas

O começo

Mar manso, pelo fim da tarde.

O ouro fulvo dos horizontes no ocaso a pouco e pouco esmaece.

Pela manhã chovera, mas antes do pôr do sol o dia levantara e as perspectivas úmidas e frescas embebem-se agora no eflúvio salutar das marés.

No espaço há uma grande acumulação de nuvens áureas e róseas de um forte colorido de silforama.

Para além, da outra banda do mar, a faixa larga e prateada da praia, em curvas, coleando, está de uma extrema doçura e nitidez inefável. A retina mal pode apanhá-la.

Os olhos pestanejam, nas infinitas vertigens e nos prismas visuais sutis e cambiantes de míope, diante do encanto dos tons de luz leve, rarefeita, espiritualizante e fina, como um tecido tenuíssimo.

Há em toda a marinha um aspecto amável, uma suavidade de aquarela d’après nature, quase êxtase.

Dá um esplêndido efeito à visão ótica e um revigoramento humorado às faculdades artísticas, este belo trecho sadio e agradável de vagas, em cuja superfície a luz frouxa da tarde se encarrega, com as suas pinceladas de fantasista, de fazer as mais extravagantes e rendilhadas decorações.

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