Os Anjos da Meia-Noite
Castro Alves (?–1871)
O começo
Quando a insônia, qual lívido vampiro, / Como o arcanjo da guarda do Sepulcro, / Vela à noite por nós, / E banha-se em suor o travesseiro
E além geme nas franças do pinheiro / Da brisa a longa voz… / Quando sangrenta a luz no alampadário / Estala, cresce, expira, após ressurge, / Como uma alma a penar; / E canta aos guizos rubros da loucura
A febre— a meretriz da sepultura — / A rir e a soluçar… / Quando tudo vacila e se evapora, / Muda e se anima, vive e se transforma, / Cambaleia e se esvai… / E da sala na mágica penumbra
Um mundo em trevas rápido se obumbra… / E outro das trevas sai… / Então… nos brancos mantos, que arregaçam / Da meia-noite os Anjos alvos passam / Em longa procissão! / E eu murmuro ao fitá-los assombrado:
São os Anjos de amor de meu passado / Que desfilando vão… / Almas, que um dia no meu peito ardente / Derramastes dos sonhos a semente, / Mulheres, que eu amei! / Anjos louras do céu! virgens serenas!
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