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Sonambulismos

Cruz e Sousa (?–1898)

Religião e mito7 min de leitura7 páginas

O começo

Foi pelas floras concestrativas de uma noite tropical de verão, numa dessas noites em que o espírito se debate e anseia na infinita vertigem das profundas e sombrias cogitações, alanceado por amarguras incomparáveis; numa noite em que desfalecimentos supremos me assediavam, que a minha visão ficou sonambulamente deslumbrada por este espantoso e imaginoso espetáculo da Lua.

Todo o azulado espaço estrelara já, fina e aristocraticamente.

Na floreada constelação da Via-Láctea, na vasta, solene e celeste, alta Nave dos Astros, alvas cintilações pompeavam, rútilos fagulhamentos, faustosas chamas claras sideralmente acesas, palpitação de harmonias, de formas, de brancuras imaculadas.

Como que diamantinas cordas tensibilizadas de harpas miraculosas afinavam sonoramente de ritmos inefáveis a solidão sagrada, eucarística, da noite; e como que também vinham desfilando, descendo lentas e letárgicas pelos fios etéreos das estrelas, alas e alas fulgentes de querubins e arcanjos revestidos das pratarias, da translucidez, da névoa vaporosa da Via-Láctea.

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