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Panteísmo (Álvares de Azevedo)

Álvares de Azevedo (?–1852)

Poesia2 min de leitura2 páginas

O começo

Eu creio, amigo, que a existência inteira / É um mistério talvez: mas nalma sinto, / De noite e dia respirando flores, / Sentindo as brisas, recordando aromas / E esses ais que ao silêncio a sombra exala / E enchem o coração de ignota pena, / Como a íntima voz de um ser amigo… / Que essas tardes e brisas, esse mundo / Que na fronte do moço entorna flores,

Que harmonias embebem-lhe no seio, / Têm uma alma também que vive e sente…

A natureza bela e sempre virgem, / Com suas galas gentis na fresca aurora, / Com suas mágoas na tarde escura e fria… / E essa melancolia e morbideza / Que nos eflúvios do luar ressumbra, / Não é apenas uma lira muda / Onde as mãos do poeta acordam hinos / E a alma do sonhador lembranças vibra.

Por essas fibras da natura viva, / Nessas folhas e vagas, nesses astros, / Nessa mágica luz que me deslumbra / E enche de fantasia até meus sonhos, / Palpita porventura um almo sopro, / — Espírito do céu que as reanima! / E talvez lhes murmura em horas mortas / Estes sons de mistério e de saudade, / Que lá no coração repercutidos / O gênio acordam que enlanguesce e canta!

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