Os Monges
Cruz e Sousa (?–1898)
O começo
Montanhas e montanhas e montanhas / Ei-los que vão galgando. / As sombras vãs das figuras estranhas / Na Terra projetando.
Habitam nas mansões do Imponderável / Esses graves ascetas; / Ocultando, talvez, no Inconsolável / Amarguras inquietas.
Como os reis Magos, trazem lá do Oriente / As alfaias preciosas, / Mas alfaias, surpreendentemente, / As mais miraculosas.
Nem incensos, nem mirras e nem ouros, / Nem mirras nem incensos, / Outros mais raros, mágicos tesouros / Sobre todos, imensos.
Pelos longínquos, sáfaros caminhos / Que vivem percorrendo, / A Dor, como atros, venenosos vinhos, / Os vai deliqüescendo.
São os monges sombrios, solitários, / Como esses vagos rios / Que passam nas florestas tumultuários, / Solitários, sombrios.
São monges das florestas encantadas, / Dos ignotos tumultos, / Almas na Terra desassossegadas, / Desconsolados vultos.
São os monges da Graça e do Mistério, / Faróis da Eternidade / Iluminando todo o Azul sidéreo / Da sagrada Saudade.
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