Lágrima de Sangue
Álvares de Azevedo (?–1852)
O começo
Ao pé das aras, ao clarão dos círios, / Eu te devera consagrar meus dias… / Perdão, meu Deus! perdão… / Se neguei meu Senhor nos meus delírios / E um canto de enganosas melodias / Levou meu coração!
Só tu, só tu podias o meu peito / Fartar de imenso amor e luz infinda / E uma saudade calma! / Ao sol de tua fé doirar meu leito / E de fulgores inundar ainda / A aurora na minh'alma.
Pela treva do espírito lancei-me, / P'ras esperanças suicidei-me rindo… / Sufocando-as sem dó… / No vale dos cadáveres sentei-me / E minhas flores semeei sorrindo / Dos túmulos no pó.
Indolente Vestal, deixei no templo / A pira se apagar! na noite escura / O meu gênio descreu… / Voltei-me para a vida… só contemplo / A cinza da ilusão que ali murmura: / Morre! — tudo morreu!
Cinzas, cinzas… Meu Deus! só tu podias / À alma que se perdeu bradar de novo: / — Ressurge-te ao amor! / Macilento, das minhas agonias / Eu deixaria as multidões do povo / Para amar o Senhor!
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