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Aparição da Noite

Cruz e Sousa (?–1898)

Filosofia3 min de leitura3 páginas

O começo

Fria aparição da meia-noite, o Luar seja contigo!

Tu vens da neve, das algidezes cruas da neve; e eu não sei bem se é a neve que te faz frio ou se és tu que fazes fria a neve.

Há, contudo, em ti, algum calor, que não é inteiramente a vida, mas que suaviza os punhalantes regelos da neve; que não é o sol da tua carne, a chama do teu corpo, mas um quente raio d’estrela, a estrela de teu olhar aceso como velas místicas no recolhido e sagrado santuário de uma Capela.

O luar seja contigo, seja contigo o luar emoliente e lascivo, este luar equatorial que não é dia nem noite, mas uma doce penumbra velada do sol do teu sorriso - como se sobre o sol do teu sorriso, para dulcificar a intensidade do foco da sua luz, quando tu eras astro inflamado, que ardias, força latente, matéria animada e pulsante, se houvesse colocado um transparente abat-jour verde, branco, azulado e amarelado, conforme é, às vezes, a refração luminosa da Lua.

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