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Um Cadáver de Poeta

Álvares de Azevedo (?–1852)

Poesia11 min de leitura9 páginas

O começo

Levem ao túmulo aquele que parece um cadáver! / Tu não pesaste sobre a terra: a terra te seja leve! / L. UHLAND

De tanta inspiração e tanta vida, / Que os nervos convulsivos inflamava / E ardia sem conforto… / O que resta? — uma sombra esvaecida, / Um triste que sem mãe agonizava… / — Resta um poeta morto!

Morrer! E resvalar na sepultura, / Frias na fronte as ilusões! no peito / Quebrado o coração! / Nem saudades levar da vida impura / Onde arquejou de fome… sem um leito! / Em treva e solidão!

Tu foste como o sol; tu parecias / Ter na aurora da vida a eternidade / Na larga fronte escrita… / Porém não voltarás como surgias! / Apagou-se teu sol da mocidade / Numa treva maldita!

Tua estrela mentiu. E do fadário / De tua vida a página primeira / Na tumba se rasgou… / Pobre gênio de Deus, nem um sudário! / Nem túmulo nem cruz! como a caveira / Que um lobo devorou!…

Morreu um trovador! morreu de fome… / Acharam-no deitado no caminho: / Tão doce era o semblante! Sobre os lábios / Flutuava-lhe um riso esperançoso; / E o morto parecia adormecido.

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